VISITANTE NOTURNO

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O Morcego (1887) de Vincent van Gogh

Meu apartamento recebe com janelas escancaradas as noites mornas de janeiro. Arejar, arejar, pede a OMS.

Teço as primeiras horas noturnas em linhas e agulhas de crochê, na companhia da filha e do rei, o cão que dormita entre nós duas. O grito inesperado dela e sua fuga do sofá me faz largar a agulha.

– Um morcego! Grita desesperada. Eu sorrio, incrédula. O rei apenas abre um olho e mostra enfado com quem atrapalha seu cochilo.

– Que é isso, menina? Morcegos não invadem apartamentos no quinto andar de um prédio na cidade! Onde já se viu!

– Mor-ce-go. Tá aí do teu lado, no sofá!

Olho à minha direita e percebo a criatura que jazia imóvel. Uma saliência preta a meu lado move timidamente a cabeça para debaixo das asas. Deixo escapar um grito de puro horror. Um morcego na minha casa! Todas as doenças que lembrava serem passíveis de transmissão através desse animal saltam da memória para inundar meu desespero: raiva, leptospirose, vírus vários. Bastou esse instante de reconhecimento para que todos os meus impulsos, já a postos, obedecessem ao instinto maior, o de proteção materna.

– Corre para o quarto com o cachorro e fique trancada lá. Eu dou jeito. Assim que pronunciei essas palavras, vi minha coragem encolher mais que a cabecinha da pequena e temível saliência preta sobre o sofá.

– Liga para seu pai, peça para ele vir ajudar! Nunca passou pela minha cabeça chamar ex-marido para dar jeito num bicho que invade a casa, mas não é um bicho qualquer, como uma barata ou uma ratazana. É um morcego! O medo me paralisa enquanto escolho as armas para o ataque: vassoura? Nada eficiente, esse bicho voa. Saco plástico? Pouco provável! Para usá-lo, seria necessária uma proximidade com o intruso bem maior que a coragem disponível. Pano de chão molhado? Hum, me parece mais eficaz. Poderia jogar de longe e imobilizá-lo num só lance. Enquanto reflito, o esperto pressente o perigo e foge do meu campo de visão, vai se esconder entre as dobras e reentrâncias do sofá. Meu desespero aumenta. O inimigo está, agora, sob a proteção da invisibilidade. Seria pra me atacar? Ai ai ai.

O filho chega em casa (ufa!) e, todo valente, diz que resolverá tudo. É que ele não tinha entendido bem…

– Morcego? Morcego mesmo? Tem certeza? Sua valentia encolhe, como a minha, minutos antes. Chega o ex-marido ansioso para reiterar sua masculinidade e provar que a presença de um homem faz falta em casa.

– Onde está ele?

Iniciam-se as buscas. Arrastam o sofá. Nada! Lanternas de celulares iluminam todos os cantos, dobras e reentrâncias.

– Ele foi embora, não está aqui!

– Não foi, não, eu teria visto. Não saí daqui, não tirei os olhos dele.

Finalmente o bichano foi encontrado. Mãos protegidas por grossas luvas de látex o capturam e, por puro instinto de medo e proteção, o defenestram em direção à sacada. As mãos enluvadas erram o alvo e ele bate na parede, cai no chão da sala, morto talvez, ou só desacordado? Enfim, a salvos! O intruso foi parar dentro de três camadas de sacos de lixo.
Começam as avaliações de como ele teria invadido o apartamento. Pela janela do meu quarto que dá para um terreno baldio, foi considerada a hipótese mais plausível. Fecha a janela, fecha tudo!

– Mãaaae, ele está se mexendo dentro dos sacos de lixo!

– Leva pra lixeira, menino! Vamos nos livrar disso logo.

Ao deitar, a imagem do visitante noturno, pequena saliência preta sobre o sofá voltou-me à mente. Foi só nesse momento que me dei por conta de que nenhum de nós teve a ideia, a coragem, a misericórdia de conceder a ele pelo menos uma morte digna, rápida, sem sofrimento desnecessário. Eu ordenei que o levassem para a lixeira enquanto ainda se mexia, respirava, portanto. Condenei o intruso a uma morte horrível, por sufocamento. A mesma morte que nos assombra nestes tempos de pandemia.

Ao obedecer o instinto de colocar a família e o cão em segurança, cometi o mais grave dos crimes, condenar um ser à morte por tortura. Fechei os olhos e tentei sufocar meu crime hediondo entre as tramas de outros pesadelos.

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