Um desenho

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Foto: Reprodução.

Demétrio Panarotto

Façamos o seguinte: com uma boa dose de improvisação e petulância proponho juntar um pouco do conhecimento do passado para lidar com a ignorância que nos aflige no presente. Partimos do seguinte ponto, aquele em que Bataille — ele mesmo, o guru do pós-estruturalismo — fala que todo animal pode ser visto como um tubo com dois orifícios. Muitos devem ter pensado imediatamente em um Dachshund, popularmente conhecido como cachorro salsicha. Calma, não se apressem, essa opção é bonitinha demais para aquilo que gostaria de confabular. Sei, também, que omiti algo que precisaria ter dito no começo do texto (devo ter faltado aos cursos de escrita criativa), afinal, e não sei por que ainda não anunciei isso para vocês, o exercício que proponho é para todos observarem com mais atenção a imagem do presidente. Percebam, por favor, que não estou falando da fotografia do excrementíssimo (os fotógrafos hoje, ou mesmo as câmeras, fazem milagres), mas me concentro naquilo que é a imagem que o presidente passa toda a vez que vem a público para se manifestar sobre qualquer tipo de assunto.

Pois bem, depois desse começo todo atravessado, podemos partir, então, do próprio presidente unindo à imagem dele o olhar batailleano: um animal com um tubo e dois orifícios. Pronto, acho que agora começa a ficar mais claro onde eu pretendo chegar. Já sabemos que o presidente é um animal, isso me parece favas contadas, e que ele possui dois orifícios. Sei que a partir dessa proposta já teríamos uma imagem interessante para divagarmos sobre o espectro presidencial que assola o país nos últimos anos.

Acidulemo-la um pouco mais e a coloquemos em movimento.

Vejamos, se numa conferência, em qualquer situação de fala, ao se anunciar o nome do respectivo representante maior da República Federativa do Brasil, todos o vissem subindo as escadas, na lateral, antes de chegar à banqueta de uma plenária em que faria o pronunciamento, como um animal em que ordinariamente se percebe, e em evidência, o tubo e os dois buracos.

Demétrio, tu tá pensando numa caricatura? Evidente que sim. Uma caricatura do e de presidente.

Ah, veja só o lapso meu — Bataille já estava quase por me dar um puxão de orelhas —, sim, a respeito dos dois orifícios, uma boca e um ânus.

Naturalmente, até por uma questão que me parece mais de ordem social e, mesmo entusiasmado, por ser um evento em um espaço público, que um dos buracos estaria encoberto ou, de outro modo, estaria vestindo uma roupa adequada para a cerimônia. Todavia quando o animal do presidente começasse o seu pronunciamento, uma boa parte dos que o escutam teriam a impressão de que algo não estaria devidamente no seu respectivo lugar. No sentido de que a inversão de valores fosse, em proporções alarmantes, maior do que a suposta intenção de parecer minimante uma pessoa sem a dicção necessária que o cargo exige.

Será que todos foram tomados de surpresa diante desse momento?

É óbvio que não. Nem as pessoas que acompanham o seu pronunciamento, nem mesmo aqueles que o elegeram.

Assim sendo, acho que podemos rebobinar a imagem do presidente até o momento anterior em que todos o veem subindo as escadas. Pronto, está no ponto, no momento em que se encontra, suando frio, sentado em frente do local em que está prestes a discursar e, ao ser chamado, de imediato as luzes se voltam para ele que se levanta e todos percebem que os orifícios do tubo do animal estão invertidos.

Hão de concordar comigo que a imagem, mesmo sendo grotesca, é linda, não? (ao mesmo tempo sei que muitos não vão perceber nada de anormal, pois a maioria dos leitores tem em casa algum parente que o idolatra, ou seja, igual a ele)

Algum sabidinho, ainda, pode retrucar e dizer que o presidente sempre teve cara de bunda. Não discordo. Mas proponho, junto com o exercício de pensar que sim, que sempre teve cara de bunda, que todos pensem comigo no modo como a fase anal do presidente, e acredito que Freud se divertiria com um paciente em tal estado, segue em tamanha evidência.

Todavia aquilo que me parece que ainda precisa ser analisado é o que levou uma nação a eleger um presidente que tenha cara de bunda e, reforçando aquilo que já deve ter sido entendido por todos, um presidente com, no traquejo habitual, os orifícios trocados. Afinal, cara de bunda a gente encontra vários por aí, mas com os orifícios trocados é algo que parece fugir à uma suposta regra.

Ah, um monstro. Sim, um monstro. As fronteiras do século XXI, que dá ênfase na separação entre ricos e pobres, segue sendo de ordem financeira. Toda vez que vemos alguém que acumulou muito dinheiro às custas de trabalho escravo, ou de jogadas no meio financeiro, logo em seguida vemos uma tentativa de melhorar a imagem do respectivo monstro perante o mundo. Naturalmente temos um exercício publicitário para camuflar um animal que se esconde atrás de uma exploração escandalosa de outros e de outras.

O monstro a que me refiro no texto, por sua vez, é da mesma estirpe, no entanto em breve será sacrificado. Por uma razão que me parece simples, o capital sempre foi dependente desse tipo de animal que goza por algum tempo das benesses do dinheiro e, rapidamente, o próprio capital (e essa é uma maneira de isentar os filhos da uta que ganharam muito dinheiro as custas do verme) o expurga, temos outros tantos exemplos na história recente.

Dito isso, dou ênfase ao meu relato: o relato do que vejo a partir de um exercício de imaginação que eu mesmo proponho. Nada além disso. E como sou eu mesmo que proponho, me dou o direito de imaginá-lo do modo que eu quero. Vejam, e sem que isso tenha a intenção de soar adstringente ou arrogante, afinal, o texto é meu, serei eu que o chancelarei no final, por isso posso (e acho que nesse momento devo) imagina-lo como tal: um presidente com cara de bunda, que não enxerga, que não ouve, que não deve sentir o cheiro, e que faz verter merda toda a vez que o orifício que carrega exposto no lugar do rosto se contrai, desculpe-me, toda a vez que o orifício relaxa. Enfim, nesse jogo entre a contração e o relaxamento.

(prestem a atenção, peço encarecidamente, nos cabelos da bunda que formam o topete, esse é um exercício importante para gente perceber que aquilo que falo pode ser muito mais intempestuoso do que pareça)

Ao chegarmos nesse ponto de entendimento da situação nos deparamos com uma questão ainda mais resiliente: ou o presidente é um gênio (e sabemos que essa hipótese é a menos provável), ou os eleitores (quem sabe por conta da maquilagem) não perceberam o monstro que ali estava, ou perceberam e votaram por se verem nele imagem e semelhança (aquilo que falei acima, toda família tem um animal em casa que o idolatra, quando a idolatria ao animal não é familiar).

Carai mano, agora tu vai querer dizer que todo o brasileiro tem cara de bunda?

Todo, não, hummmmm… mas temos que admitir que no Brasil uma parte considerável de pessoas tem cara de bunda e, para ajustar isso que convencionalmente se chama de brasileiro, com o respectivo orifício trocado. Não obstante, que uma outra parte considerável de pessoas, aqueles que se omitiram durante a última votação, vivem, perante o animal, uma crise de identidade, ou, e me perdoem o trocadilho, de orifício.

Somente diante de uma situação como essa é que somos levados a entender o problema que estamos enfrentando: um animal falando merda o tempo todo e ainda sendo agraciado por uma parte considerável da população e bajulado por um silêncio neurastênico da mídia e do STF (considerando que as notícias sobre o respectivo animal são sempre alisadas pela propaganda amiga do amigo da propaganda). Não bastasse isso, a merda se reproduz nos orifícios expostos: dos demais políticos (e nas suas causas pessoais de enriquecimento às custas da famigerada bandeira verde amarela), de banqueiros e seus lucros astronômicos que sempre precisa ser um tanto generoso a mais do que no ano passado, de empresários que apoiaram esses mesmos políticos e de suas respectivas associações, de fazendeiros do agro-business, das congregações religiosas, de reitores de universidades (sim, esses, além de burros, são covardes), de… nossa, a lista é gigantesca (embaralhe os tempos: metade dos brasileiros segue tomando ivermectina para se livrar do surto de piolho que aqui chegou com a família real, metade raspou a cabeça para parecer chique que nem a Carlota Joaquina).

O brasileiro tem cara de bunda.

Na prática, isso não é novidade, em panos molhados, estamos reeditando o Brasil de sempre. O Homem com a cabeça de papelão, de João do Rio, é um belo retrato da sociedade brasileira de um pouco mais de um século atrás, no caso, a mesma que, parafraseando Pasolini, na voz e imagem de Orson Welles, em La Ricota, ganha o seguinte contorno: o brasileiro é um monstro, um perigoso delinquente, conformista, colonialista, racista, escravista, medíocre (em italiano qualunquista).

E não me surpreende o fato de algumas pessoas dizerem que nunca tivemos um presidente tão burro quanto esse. Parece uma sempre falta de leitura da nossa história. Ao fim e ao cabo, considero elogioso demais para um país que viveu vinte anos (de 1964 a 1984) com outros cinco animais da mesma extirpe ocupando o cargo maior, dar tamanho crédito ao animal que ocupa por ora a cadeira de presidente.

O que me deixa horrorizado não é o monstro, afinal, qualquer animal já o havia percebido, mas fico horrorizado com a falta de reação das pessoas em relação àquilo que está acontecendo.

O que me faz, buscando Bataille, imaginar que a acefalia do brasileiro é congênita e no lugar da cabeça, daquilo que deveria ser o pensante e que nos distanciaria dos demais animais, cabe qualquer coisa: uma cabeça de papelão (como o conto do João do Rio), o ornamento que cada um que leu este texto escolher, uma bunda mesmo, ou chamar a atenção para a própria bunda.

 

Demétrio Panarotto nasceu em Chapecó-SC em 1969 e vive em Florianópolis. É doutor em Literatura (UFSC) e professor de roteiro no curso de Cinema da UNISUL. Músico, roteirista, poeta, escritor e idealizador do programa Quinta Maldita (na webrádio Desterro Cultural) e do PIPA Festival de Literatura (na companhia de Juliana Ben). Publicou: “Borboletas e Abacates” [Argos, 2000]; “Mas é isso, um acontecimento” [Editora da Casa, 2008, poemas]; “15’39”” [Editora da Casa, Alpendre, 2010, poemas]; “Qual Sertão, Euclides da Cunha e Tom Zé” [Lumme Editor, Móbile, 2009, livro/ensaio]; “Crônica para um defunto” [dengo-dengo cartoneiro, 2013, poemas]; “O assassinato seguido de La bodeguita” [Butecanis Editora Cabocla, 2014, contos]; “Poema da Maria 3D”[Coleção Formas Breves, e-galáxia, 2015, e-book, conto]; “Ares-Condicionados” [Nave Editora, 2015, contos]; “A de Antônia” [Miríade, ” 2016, infantil]; “No Puteiro” [Butecanis Editora Cabocla, 2016, poemas]; ‘Café com Boceta'[Butecanis Editora Cabocla, 2017, poemas]; ‘Blasfêmia ‘[Butecanis Editora Cabocla, 2018, poemas]; “18 Versos para o funeral de Demétrio Panarotto” [Papel do Mato Oficina Tipográfica, 2018, poemas], “Tratamento da Imagem” [Patifaria, 2018, conto]; “Arquipélago”[Patifaria, 2018, infantil], “Lotação” [Medusa, 2018, poemas]; Vozes e Versos [Martelo Casa Editorial, 2019, poemas, com Ana Elisa Ribeiro e Marcelo Lotufo]. Responsável, ainda, pela Organização de: Livres Somos Versos, em parceria com Arlyse Ditter [ACB, 2018, poemas] e Cartaze, em parceria com Arlyse Ditter [ACB, 2019, poemas]; Cerzindo e Cozendo [Butecanis Editora Cabocla, 2020, poemas] mais alguns discos e alguns filmes.

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