Três casas e uma ida ao supermercado

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Xícara de chá sobre pilha de livros.
Foto: Reprodução.

Mudanças. Mudar para um exílio novo e íntimo. Casa e Terra. Aquela vista por Caetano na prisão, a “tal fotografia em que apareces inteira/ porém lá não estavas nua/ e sim coberta de nuvens”. Terra. Palmilho hoje a sua casca generosa e maltratada como quem pisa em flores, como se a brisa que me embalava ainda ontem fosse agora um tsunami que pode me arrancar desse chão.

Um chão errático, cigano, me sustenta. Chão de casa, ou de casas? Um ano e mudei três vezes, três casas na mesma cidade, quase que no mesmo bairro. Razão? Tem não, a vida tem seus estranhos caprichos e não me perguntes mais.

No meu caso mudar é mais que tudo trocar os livros de lugar. Carreguei sim uma biblioteca três vezes seguidas. Entre o que fica e o que segue o apego supera o desapego. Vai tudo. Vivi catando esses textos todos para agora jogá-los pro alto sra. Kondo? E nenhum plotatch como Hilda H. recomendava aos acumuladores.

Nem só livros, mas uma imensa galáxia, uma enxurrada, um turbilhão, onda de memórias. Cada coisa com sua história. Narrativas perdidas e agora ressignificadas como se cada prato ou cada cadeira contassem de um tempo que agora reluz imperativo e salta da escuridão dos armários. Mudar. Gesto de fuga para melhor se adaptar à nova ordem. O pandemônio exige mudanças. Mudar, mas há onze meses estou nessa lida. Onze meses. Aproximadamente 330 sois. Nova casa, nova rotina.

 

Agora que mudei de vez, quero ir ao mercado, que fica a três quarteirões daqui. Três, quatro, algumas tantas maçanetas e fechaduras pela frente me lembram de uma horada de vírus à solta. Escuto: uma pilha de corpos aguarda sepultamento em caminhões do exército. Os números, tantos infectados, X estão nos respiradores. Visto meu uniforme, armo meus escudos, meus sapatos, o par que menos amo, porque deverá me aguardar do lado de fora, assim como o casaco e o lenço colorido. Ai, meu lenço colorido. Antes xodó das velhinhas habaneras que me pediam de lembrança entre uma e outra selfie, entre los puros perfumados de tabaco. Uma echarpe que me salva do inimigo. É a burca profana que receberá os ares da peste. Mais números.

As portas se abrem para o cálido inferno de uma tarde mansa em Curitiba. Saio pelas ruas que cercam a nova casa. Já na rua, cruzo com passantes apressados e desconfiados. Afastam-se, eu me afasto, os olhos são de surpresa, além de sermos estranhos agora somos estrangeiros em nossas próprias ruas. Somos desterrados, expatriados do mundo, um mundo só, um mundo que inteiro caberia nessa pequena rua tão ensolarada, um mundo e suas notícias. Errático, sem caminhos.

Periga encontrar o vampiro. Quem? O vampiro de Curitiba, o Dalton. Ele mora bem ali e com a cidade meio vazia vai que resolve dar uma voltinha e tomar uma coalhada na quinze. Ah…

No mercado é distanciamento, filas mascaradas, prateleiras ameaçadoras. Pego meia dúzia de básicos e despenco para rua. O caminho de volta é tenso, chego ao portão do prédio, as maçanetas…as portas, tatuadas pelo inimigo, me aguardam, entro em casa na antecâmara de desinfecção antes da porta, tudo está no lugar, os pássaros estão barulhentos. O ar, sim eu respirei o ar, o ar da cidade, o ar dos números, o ar, meu deus, dos sem-ar.

De volta aos 330 que daqui a pouco serão 331 dias. A nova casa, uma grande bolha de ar, uma bolha de sabão que pode se desmanchar em meio ao voo em nossa direção. E esse voo incerto em asas de Ícaro. Cuidado com o sol, cuidado com o ar. Os dias vêm e virão. A linha do tempo é um looping. Chegam notícias de amigos, todos distantes, alguns infectados. Escuto algumas risadas no apartamento ao lado. Para alguns são férias, alegria dissonante. Que horas são? Quanto tempo me resta?

Sapatos limpos. Álcool. Tempo. Números. A casa, escuto a moça que canta aquela ária da janela e depois vai dormir que amanhã será ainda hoje. Fecho o livro e bebo um café para lembrar das festas, dos beijos, do bolo da Mainha, das portas abertas. Das três casas em que passei esses 330 dias. Do ar.

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