QUANDO OS TAMBORES SILENCIARAM

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Carybé, 1986

Os primeiros minutos da minha manhã pertencem ao silêncio que, com generosidade, me permite o gesto mecânico de passar café. Enquanto derramo em círculos imperfeitos o cristal líquido sobre o creme que se forma, os aromas se desprendem e se misturam com meus devaneios, já quase inalcançáveis. Seguro a caneca com reverência, como um pároco empunha seu velho cálice dourado e estendo o olhar perdido através da janela da cozinha. Volto-me e me deparo com o calendário, desses de papel, com comercial de supermercado e tudo. Incrédula diante da data, aperto os olhos e confirmo: lua nova, Carnaval.

Volto-me outra vez para a janela e observo a claridade de fevereiro derramada nos prédios e calçadas. Aqui dentro, faz um ano, a escuridão contrasta com esta manhã de luminosidade muda e severa.

O carnaval foi eclipsado pela pandemia, pela morte que logo terá vencido mais de 250 mil irmãos, pela incompetência no enfrentamento à doença, pelos asfixiados de Manaus, pela Cloroquina no lugar do oxigênio, pelo obscurantismo e negacionismo, pela politização da vacina. Andamos de lado, cabeça baixa, sendo os cancelados da vez, os párias da humanidade. Representamos uma ameaça à biossegurança do planeta, bomba biológica descontrolada.

O enredo deste carnaval fala de luto e despedidas. A comissão de frente, exausta, prossegue em sua tarefa inglória nos hospitais. Não há alegorias. Os adereços foram banidos, acusados de serem condutores potenciais do vírus. Nenhuma fantasia salva da realidade. A bateria silenciou. Mestre sala e porta-bandeira continuam entubados. Não existe harmonia possível. A evolução tropeça no seu próprio destino e chora a aberração parida pela democracia. Sim, democracia, de tempos em tempos, também gera seus monstros.

Ruas e avenidas estão vazias dos foliões, da festa de cores dos blocos e escolas de samba, ainda assim, é fevereiro. “Em fevereiro (em fevereiro) Tem carnaval (tem carnaval) Eu tenho um fusca e um violão Sou Flamengo Tenho uma nêga chamada Tereza”. O samba emudeceu seu batuque, calou sua cadência. A alegria não desfilou suas cores nas avenidas. Nem a famosa morena escultural da TV deu as caras, nem exibiu seu corpo debruado em arabescos de purpurina e festa. Não é festa que habita nossos corações, é luto! Cinzas precoces da quaresma.

A única escola a pisar na Sapucaí foi o “Unidos do Vem Vacina”. Destaque para as enfermeiras que aplicaram o antídoto no Monarco, 87 anos, baluarte da Portela e em outros integrantes da velha guarda de várias escolas de samba.

Nenhum rufar, nenhuma percussão invade a rua Maciel de Baixo. Ali no Pelourinho, os tambores de Olodum quedam-se imóveis e sangram silêncios sobre os paralelepípedos do centro histórico de Salvador. Olodum, Olodumaré, o Deus maior rende sua homenagem às vítimas da Covid-19 e nos convida a tecer outros estandartes que possam resgatar a esperança natimorta de nos colocarmos, outra vez, em pé diante da vida e do mundo. Nesse dia será carnaval “Sambaby, sambaby” e não será de café amargo que encherei a minha taça!

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