O coronavírus surgiu num laboratório na China?

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É comum ouvirmos a expressão “vírus chinês” para designar o covid-19, assim como alguma variação da teoria conspiratória de que o vírus teria surgido em um laboratório de Wuhan, segundo a qual, a partir de lá, o vírus teria se espalhado para o mundo.

Esse discurso é amplamente propagado principalmente pela extrema-direita e ganhou força com o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que reforçava essa ideia de um “vírus chinês”. Bolsonaro é outro que compartilha dessa retórica, bem como seus filhos, o chanceler Ernesto Araújo e outras figuras bem conhecidas desse campo político.

A extrema-direita global, assim como no Brasil, está tentando forçar essa narrativa de que ou o vírus foi feito em laboratório, ou que é utilizado pela China como uma forma de controle populacional, entre várias teorias relacionadas, que incluem entre seus cérebros maquiavélicos até o multibilionário Bill Gates.

Um painel de cientistas da Organização Mundial da Saúde foi para China investigar a história do coronavírus e de sua origem. Estiveram no mercado de Wuhan, suposto ponto inicial de propagação do vírus, além de visitar os laboratórios da cidade.

Houve uma investigação intensa que durou semanas para averiguar esta teoria. Na última terça-feira (09/02), esse grupo de pesquisadores anunciou que a probabilidade de que o vírus SARS-CoV-2 seja originário de um laboratório chinês é ínfima.

Os cientistas chegaram a esta conclusão porque os laboratórios chineses são seguros e não possuem esse tipo de vírus nessa variação. O vírus não estava disponível entre as amostras que eles possuíam.

Portanto, os investigadores concluem que a origem deste vírus seria natural, como acontece com diversas doenças infecciosas. A maior probabilidade é que o SARS-CoV-2 seja proveniente dos morcegos, passou por uma espécie intermediária, possivelmente um pangolim ou rato do bambu, duas iguarias da culinária chinesa. A partir disso, teria chegado por meio da comida aos humanos.

O filme Contágio, de 2015, expõe de maneira fidedigna como a mutação e propagação de um vírus acontece. Além disso, esta obra é muito boa para explicar como funcionam métodos eficazes para combater uma pandemia.

A pesquisa da OMS, portanto, contesta de maneira sólida essa noção de que a pandemia é uma arma biológica chinesa para destruir a humanidade ou para enfrentar os capitalistas.

A história de um vírus chinês, efetivamente, serve a uma disputa ideológica e de valores. Essa disputa é fundamental para convencer as pessoas da legitimidade da sua luta e de suas ações.

Alguns chamam essa situação entre Estados Unidos e China de uma nova Guerra Fria, a Guerra Fria do Pacífico ou Guerra Fria 2.0. Esse conflito seria por hegemonia que, supostamente, acontece entre Estados Unidos, com pretensão imperial, e China, que busca predomínio comercial.

Sob esta ótica, esse momento poderia ser comparado à Guerra Fria, que se deu entre anos 50 e anos 90 entre Estados Unidos e União Soviética. A disputa do passado envolveu diversos campos, com corrida armamentista – com a produção de bombas nucleares cada vez mais poderosas e que, caso houvesse uma guerra de fato, poderia levar ao fim da espécie humana –, corrida espacial, tecnológica…

Com efeito, a Guerra Fria representou, antes de tudo, uma disputa de influência geopolítica, ligada a fortes elementos ideológicos. Entretanto, sou da opinião de que a ideologia, socialista ou capitalista, mascarava a real intenção de atuação política dos dois países sobre o resto do mundo.

O caso entre EUA e China não é diferente. Há uma disputa comercial, que se exemplifica com Trump tentando iniciar uma guerra comercial com a China, impondo tarifas para importações de produtos chineses nos Estados Unidos.

Porém, o uso dessa retórica ideológica é essencialmente um modo para convencer as pessoas da legitimidade de um discurso de natureza imperialista.

Ao refletirmos friamente, para um consumidor americano ou brasileiro não faz a menor diferença se o celular que ele está comprando vem da China ou do Japão. Não importa se aquele produto que foi comprado na lojinha foi fabricado na China ou em qualquer outro lugar.

Ninguém se interessa se sua camiseta foi feita em Singapura, na Tailândia, na Malásia ou na China. Basicamente, o consumidor quer produtos mais baratos, acessíveis e que possuam uma qualidade e durabilidade mínimas.

Portanto, é o acesso ao produto que importa.

Contudo, quando se apela para o elemento ideológico e se afirma que um país quer usar seu poderio econômico comercial para propagar sua ideologia comunista, o consumo adentra outra esfera. As pessoas passam a olhar com outros olhos suas compras e a temer a China.

O próprio coronavírus entrou nessa disputa ideológica. Este fenômeno da natureza que, de diferentes modos, aconteceu várias vezes antes foi cooptado por esse conflito de discursos. 

Vejamos o exemplo da peste negra, que dizimou parte considerável da população da Europa na Idade Média. Na época, uma bactéria matou milhões de pessoas pelo planeta, e simplesmente não foi invenção de ninguém, de nenhum país querendo prejudicar os demais numa disputa geopolítica. Não se sabia a origem, a doença apenas foi se propagando.

Neste período, chegou-se a acreditar que a peste era uma praga de Deus para punir os seres humanos e expiar os nossos pecados.

De forma paralela, neste embate ideológico, o vírus não pertence mais a um plano divino com Deus nos punindo, mas trata-se da China que, supostamente, desenvolveu uma arma biológica para se tornar uma potência mundial e derrubar os EUA.

Logo, o elemento ideológico é secundário. Ele é utilizado apenas para causar medo e reunir as pessoas em torno de um inimigo em comum, o perigoso inimigo comunista que quer destruir a civilização ocidental.

Precisaríamos tentar compreender mais a dinâmica psicológica desta retórica conspiratória. Contudo, até onde podemos perceber, é como se a realidade já não fosse assustadora o suficiente. Então, torna-se necessário juntar as peças soltas e elementos esparsos para elaborar uma teoria mais consistente. Com isso, obtém-se algo que pareça explicar esses fenômenos, que aparentemente estabeleça uma relação de causalidade e parece compor uma resposta satisfatória para a realidade.

Dessa forma, as pessoas passam a acreditar nas coisas mais malucas que se possa imaginar.

As teorias conspiratórias geralmente são propagadas de maneira eficaz quando se tem uma crise institucional, uma crise de confiança nas instituições, sejam democráticas, de um regime, ou nas instituições científicas.

Quando há ruptura na credibilidade, as propagandas conspiratórias, baseadas em fake news, se tornam mais convincentes do que a versão oficial.

Sobre valores, o livro “Don’t think of an elephant” (“Não pense em um elefante”, em tradução livre) do George Lakoff, linguista e cientista cognitivo norte-americano, discute muito sua importância.

No embate político, segundo ele, o que menos importa são os fatos e a verdade. O que realmente interessa é o conjunto de valores que você parece representar.

Se você aparenta representar os valores de grande parte da população, você reúne essas pessoas em torno de si.

Se você não parece apresentar o interesse dessas pessoas, mas apenas de uma minoria, de uma elite ou de algum grupo específico, você perde esse apoio.

O grande desafio, na questão política, é justamente encontrar essas pautas de valores que agremiem as pessoas e que lhe dê as conquistas políticas que almeja, segundo Lakoff.

É provável que este seja o grande desafio das esquerdas globais, não apenas no Brasil. 

É necessário voltar a mostrar para o trabalhador e para trabalhadora, para as pessoas mais pobres, que esses são estes partidos e candidatos de esquerda que representam tais pessoas. 

O trabalhador comum não se sente representado, mas sim rechaçado e humilhado, pois é esperado dele um refinamento intelectual que, talvez, ele não tenha nem condições de acesso.

Essa é uma falha da esquerda, que não tem conseguido se comunicar. Ao contrário, em muitas circunstâncias, o discurso da esquerda e o elitismo intelectual de suas figuras acabam repelindo o mesmo segmento da população que, em tese, representaria, enquanto que, por outro lado, a extrema direita, com suas mentiras e teorias conspiratórias, está ali de braços abertos.

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