Custo-Benefício

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Foto: Michael Dantas / AFP

(por Eugênio Vinci de Moraes)

Há algum custo-benefício em escrever crônicas enquanto morrem duas, três mil pessoas-dia no país? Não sou capaz de responder a essa pergunta. Menos ainda saber qual empreendedor da língua criou o substantivo composto que ocupa o título deste texto. Suponho ser primo do autor da expressão “não há bônus sem ônus”, versão erudita do “não há almoço grátis”. Tudo da família do neoliberalês, língua criada para não se ir direto ao ponto, nunca dizer franca e diretamente “nós queremos é (te) explorar!”

Mas como essa linguagem veio parar neste texto? Talvez porque o Brasil esteja hecatombizando e a crônica não tenha como passar ilesa a isso. Estamos indo covid abaixo, empurrados pela corja miliciana que se acha a cereja diferenciada do bolo nacional – para usar um adjetivo recém-catapultado a tomar o lugar de único, singular, especial ou diferente. Não tenho mindset pra compreender esse case catastrófico, me falta um coaching de neoliberalês. Nem mesmo sei qual o prejuízo disso para as letras nacionais. Sou do tempo que só a muito custo cuspiam-se palavras assim numa publicação como esta.

Mas isso são águas colapsadas. Talvez a crônica tenha entrado para os cálculos do Custo Brasil, impactando o Tesouro brasileiro, o qual não aguenta mais sustentar esse bando de vagabundos que escrevem sobre coisas sem importância alguma.

Então o jeito é falar de assuntos sérios, ou melhor, com bom custo-benefício. Por exemplo, a destruição de automóveis levada a cabo pela Ford na Bahia. Na fábrica de Camaçari, a empresa estadunidense foi flagrada destruindo 900 carros. Já que estão fechando a planta, houveram por bem descontinuar os coches de lata que restaram por lá. Uma conta que considera o valor agregado e cômputos correlatos, cálculos que meu analfabetismo aritmético não alcança. Mas tem lá seu custo-benefício. Não há por que pensar nos milhares de empregados demitidos do industrioso município baiano.

Outra notícia que pode alavancar esta crônica é a inovadora sugestão do prefeito de Porto Alegre, cujo nome prefiro não visibilizar. Em uma live, em fevereiro deste ano, concitou seus concidadãos a salvarem com suas vidas a economia da bela cidade sulina. Imagino que a bicharada da Reserva do Lami José Lutzenberg passe a frequentar os shoppings porto-alegrenses e os bares à beira do Guaíba, de modo a não deixar sangrar o erário municipal. Custo-benefício com sustentabilidade. Daora.

Da Bahia ao Rio Grande do Sul, não falta assunto para a empregar o neoliberalês. Aliás, sugiro outro nome para essa língua. Dados seus promissores resultados, não diviso nome melhor do que Necrolíngua. O custo-benefício está evidenciado. Sob esse termo podemos agregar o liberalês, o autoajudês e o celebridadolês numa categoria só, necrolalia que nenhuma vacina linguística poderá deter.

Ah, fora o benefício evidente: o fim da crônica.


Eugênio Vinci de Moraes é doutor em Literatura Brasileira (USP), professor do Centro Universitário Uninter (PR), tradutor bissexto e autor de Processos de Revisão Textual (Intersaberes). Criou o blog Letra Corrida, em que publica crônicas quinzenalmente.

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